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Novos desafios as semanas de moda

A chegada do Covid-19 gerou uma necessidade de inovação para as tradicionais Fashion Weeks 

Desfile digital da marca Burberry para a Semana de Moda de Londres, 2020.

A vinda do fim ano marca mais um começo das Fashion Weeks de primavera/verão. As 4 principais do mundo, nomeadas de Big Four (As 4 Maiores – Nova York, Londres, Milão e Paris), tiveram que pensar em novas maneiras de produzir os desfiles que normalmente eram lotados de um público faminto pelas últimas novidades da alta moda. Sem a possibilidade de realizá-los presencialmente pelas questões sanitárias envolvendo o Covid -19, novas ideias surgiram a partir das marcas participantes. Confira neste post as soluções pensadas para as produções de alguns dos eventos mais importantes do mercado.

Semana de Moda de Nova York:

A Patbo, uma marca brasileira, decidiu mostrar sua coleção ao NYFW de forma virtual.

A semana de moda de Nova York primavera/verão 21 foi a primeira do Big Four a iniciar uma nova era para as Fashion Weeks. Com bastante restrições, os desfiles ocorreram principalmente na esfera digital, tendo alguns poucos sido realizados presencialmente. Os shows aconteceram entre os dias 13 a 16 de Setembro.  A plataforma Runway360, criada pelo Conselho de Designers de Moda da América, fora disponibilizada para que o público pudesse ter acesso às apresentações, desfiles e lookbooks. Um dos destaques da temporada foi a marca brasileira de moda praia Patbo. Por meio de uma apresentação virtual, a marca conhecida por valorizar o artesanato, apostou em peças estampadas com bordados e conchas.

Semana de Moda de Londres:

A marca Burberry realizou o seu desfile por uma live stream em uma floresta, no interior da Inglaterra.

A semana de moda de Londres foi a primeira marcada por ser 100% digital. Focada em se adaptar a uma nova realidade, a semana londrina foi destaque por ser a primeira iniciativa completamente online dentre as outras do Big Four. Entre os dias 18 a 22 de Setembro, cerca de 50 marcas apresentaram suas coleções em formatos multimídias, misturando fotos, vídeos e curtas-metragens. Para o público acompanhar os desfiles e transmissões, o site da semana de moda foi renovado para ser uma plataforma on-demand, com acesso ao cronogramas dos shows, perfis do designers e muito mais. Dentre as marcas mais famosas que mostraram suas coleções, estão a Burberry, Vivienne Westwood, Victoria Beckham e diversas outras. 

Semana de Moda de Milão:

A Versace escolheu realizar um desfile por transmissão ao vivo. Com uma pegada enérgica e fantasiosa, a coleção foi inspirada pela beleza e o espirito selvagem da natureza.

A famosa semana de moda da cidade mais fashion do mundo deu o que falar, principalmente por ter sido marcada como uma das mais próximas à “normalidade”, já que reuniu mais de 20 desfiles presenciais, como das marcas Fendi, Alberta Ferretti e Dolce e Gabbana. Contudo, também, houveram desfiles digitais, como das grifes Prada e Versace. A grande crítica a realização de eventos presenciais se deu pela falta de empatia das grandes marcas em respeitar o grande número de vítimas do Covid-19. Afinal, a Itália fora uma das nações dos maiores atingidas pela pandemia mundial, tendo mais de 300 mil infectados em todo o país. O evento ocorreu entre os dias 23 a 28 de Setembro e trouxe questionamentos sobre a maneira de como estamos encarando os impactos da pandemia do coronavírus.

Semana de Moda de Paris:

A maison Chanel foi uma das marcas participantes que decidiu por realizar um desfile presencial. A inspiração para essa coleção veio de Hollywood, especialmente do glamour associado a atrizes de cinema.

Uma das semanas mais importantes do circuito tradicional, A Paris Fashion Week primavera/verão ocorreu entre os dias 28 de Setembro a 6 de Outubro. Pela questão do Covid-19, esta edição ocorreu em um misto de apresentações presenciais e virtuais. Críticas foram feitas a marcas que seguiram por realizar shows presenciais e até causaram aglomerações, como foi o caso da Grife Isabel Marant. O line-up reuniu marcas famosas, como Chanel, Dior, Chloé e diversas outras.

E no Brasil?

Isaac Silva – SPFW N48 Inverno 2020.

A São Paulo Fashion Week, a semana de moda mais importante da América Latina, está marcada para acontecer este mês entre os dias 4 e 8 de Novembro. A edição será totalmente digital e tem como foco comemorar os 25 anos de realização do evento.

Uma outra novidade é um termo moral assinado pela organização do SPFW junto do coletivo Pretos na Moda. Nomeado de “Tratado Moral”, o documento visa a diminuição do preconceito racial no evento e garantir boas condições de trabalho a modelos, costureiras, camareiras e outros profissionais. Além disso, outras questões foram abordadas,  como o pagamento de cachê obrigatório a todos os modelos participantes e o estímulo a valorização de outros padrões de beleza além do tradicional branco, longilíneo e magro. Grandes nomes assinam o documento do evento, como representantes de agências, stylists e outros profissionais da indústria. Cabe agora ver se as práticas serão realmente implementadas nos bastidores e desfiles do evento.

Referências:

Elite da moda brasileira assina carta antirracista proposta por ativistas, Folha de São Paulo, 2020.

Milão Fashion Week tem mais de 20 desfiles presenciais em meio a pandemia, Ilca Maria Estevão, Metrópoles, 2020.

Primavera/verão 2021: Saiba o que rolou no London Fashion Week Virtual, Ilca Maria Estevão, Metrópoles, 2020.

London Fashion Week 2020: Faço um giro pela 1 edição do evento digital, Ilca Maria Estevão, Metrópoles, 2020.

Givenchy, Chanel e Louis Vuitton: Veja como foi o fim do Paria Fashion Week. Ilca Maria Estevão, Metrópoles, 2020.

Paris Fashion Week: veja destaques de Dior e Loewe na primavera/verão 2021, Ilca Maria Estevão, Metrópoles, 2020.

Moda: maratona do Fashion Week é retomada e tenta encontrar novo formato após a pandemia, UOL, 2020.

Boletim julho: Os impactos da pandemia na moda, atualizadas diariamente, FFW, 2020.

Paris Fashion Week acontecerá de forma digital a partir de segunda, Blog Social, 2020.

Saiba qual o destino das semanas de moda após a pandemia coronavirus, Ilca Maria Estevão, Metrópoles, 2020.

SPFW celebrará seus 25 anos com evento digital, Novello Dariella, 2020.

#SPFW25ANOS, confira o line up da primeira edição digital do evento, Vogue Brasil, 2020.

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O ininterrupto circuito das tendências de moda

Às tendências oferecem uma maneira de compreendermos os desejos e comportamentos de nossa sociedade

O vestidinho preto: um clássico que até hoje passa por releituras.
Versace – primavera/verão 2019

A moda é uma constante onda de ciclos, um vai e vem eterno de tendências e modismos. Este processo ininterrupto é apenas um reflexo das nossas interações sociais a partir do vestuário. Afinal, se vestir é um ato político que praticamos todos os dias e que define os nossos desejos, vontades e identidade. 

O ciclo da moda é basicamente a cadeia produtiva que faz esse mercado girar. São os processos criativo e de produção, desde o momento em que uma ideia é concebida até a comercialização e utilização pelo consumidor final.

Dentro desse imenso escopo dos ciclos de moda estão as tendências. Elas são também uma forma de interação social, mas focadas em traduzir os desejos e vontades de qualquer indivíduo em diferentes contextos sociais.  Quando falamos de tendências, nos referimos a comportamentos, estes que podem ser repetidos infinitamente e que também explicam o fato das tendências transitarem entre ciclos. 

Podemos tomar como exemplo alguns dos looks do último desfile da marca Balmain na recente PFW Spring/Summer 21  (Paris Fashion Week Primavera/Verão Edição 21 – uma das semanas de moda mais importantes do circuito tradicional). Com um apelo aos anos 80, a maison apostou na década antiga para produzir looks extravagantes e irreverentes. Ombreiras chamativas, exagero de neon, conjuntinhos e muito brilho marcaram um retorno a uma das épocas mais amadas (e odiadas) pelo mundo fashion.

Apelo aos anos 80: Looks da marca Balmain, no último  Paris Fashion Week (S/S21), marcaram por referenciar a década passada

O desfile da Balmain é um exemplo perfeito para entendermos o circuito das tendências e como elas se comportam em meio aos ciclos. Como mostrado nos looks, elementos da década de 80 retornam a atualidade e marcam uma nova releitura sobre a época, criando assim um sentimento nostálgico e saudosista. 

Essa prática de valorização a referências do passado já é algo comum em diversas áreas além da moda. Podemos usar como exemplo a série Stranger Things, estreada em 2016, e inspirada em diversas referências da cultura pop dos anos 80. Este fenômeno de retorno pode ser nomeado de nostalgia precoce. Ele se refere a ciclos existentes em nossa sociedade e que acontecem em intervalos de 20, 30 a 40 anos. A cada novo ciclo buscamos referências em tempos passados e os reinterpretamos a partir de filmes, séries, músicas, tendências de moda e muito mais.

Poster da série Stranger Things (2016)

A psicóloga Catia Gerber, em entrevista para o portal Nova Época, complementa sobre o motivo da nostalgia ser um tema tão forte para a cultura pop: “A nostalgia pode servir como um mecanismo de defesa, um porto seguro. Se nos remete ao passado, pode também nos levar a algum lugar que faça com que o momento atual seja menos doloroso”

Dadas as circunstâncias contemporâneas, principalmente pela crise mundial do COVID -19, a volta a referências do passado, como no caso do desfile da Balmain, se mostra como uma válvula de escape as vivências do cotidiano atual. 

Classificando as Tendências 

Para entender o ciclo de vida das tendências e de que maneira elas impactam na sociedade, estudiosos e pesquisadores do ramo da moda criaram terminologias que nos ajudam a compreendê-las mais facilmente. Dentre as classificações encontramos: 

Modismo: Pode também ser chamado de microtendência, pois tem vida curta. São desejos de consumo efémeros, geralmente alavancados por referências do momento – um filme, uma série, um personagem, uma novela e, em tempos de era digital, até mesmo um influencer. O modismo é uma tendência muito apreciada pelos varejistas, já que atinge, em curto prazo, um pico de consumo, gerando uma boa margem de lucro. 

Podemos citar como exemplo de modismo duas tendências lançadas por novelas da Globo. Uma delas foi o anel usado pela Jade, protagonista da novela O Clone (2001). Outra foi da novela de 1978, Dancing Days, em que meias lurex com sandálias de salto alto viraram febre. 

Clássico: É também chamado de macrotendência, já que sua influência é duradoura: afinal um clássico nunca morre. O clássico é um estilo que não muda por conta das tendências, podendo ser alvo de releituras, mas nunca perdendo a sua essência. 

Como exemplo temos o icônico Black Givenchy Dress, em tradução livre: o tubinho preto, imortalizado por Audrey Hepburn no filme Breakfast At Tiffany’s (Bonequinha de Luxo).  Outro clássico é a estampa xadrez da grife Burberry, que até hoje é um símbolo de identidade da marca. 

Moda: Todas as tendências que não são efêmeras como o modismo ou eternas como o clássico, podem ser classificadas como moda. Estes são produtos que normalmente possuem um ciclo de vida mais longo e estão associados a estações ou lançamentos em semanas de moda. A velocidade de ascensão e queda desta tendência costumam ser parecidas, marcando assim um ciclo mais equilibrado. 

De exemplo, podemos citar as pochetes que fizeram um estouro no meio high-fashion há alguns anos atrás, principalmente nas semanas de moda de 2017 e 2018. Porém, na atualidade, este estilo de bolsa já se encontra em desuso. Contudo, ainda existem adeptos que incorporaram o acessório a seu estilo pessoal.